SOBRE

VITO GIANNOTTI: o homem que virou semente

vito25Nascido em Bozzano, no Comune de Lucca, na Itália, Vito Giannotti é o quarto dos cinco filhos do casal Clementina Mariani e Salvatore Giannotti. Teve dois filhos, André e Taiguara, e uma terceira nascida de outro pai, Luisa. É difícil de acreditar, mas Vito, na infância, foi seminarista. Quem o conhece sabe a dificuldade insana de se tentar controlar uma pessoa hiperativa como ele foi. Tentaram dar castigos, encarcerá-lo na solitária, fizeram o menino passar fome… Mas nada disso adiantou. Aquele rapaz questionador e irreverente continuou erguendo a voz cada vez que suas perguntas ficavam sem resposta, e cada vez que achava que as coisas podiam ser diferentes. Preguiça e comodismo, definitivamente, nunca combinaram com seu gênio tempestuoso.

Com um grupo de padres operários, foi para a França e, de lá, para Israel, onde viveu experiências comunitárias em Kibbutz. De lá ele herda a iniciativa de compartilhar tudo que chega às suas mãos, desde comida, roupas, sapatos até livros, filmes… Quase todo mundo que cruza com Vito sai desse encontro levando algum presente. No lugar dos bens materiais, ele aprendeu a valorizar as relações, o olho no olho, e também, claro, a formação teórica, política e cultural.

A vinda para o Brasil

Depois dessas ricas experiências, Vito elegeu o Brasil como novo lugar de moradia por ser um país considerado, na época, de “Terceiro Mundo”. Era preciso ajudar os pobres daqui. Foi, primeiro, para Vitória, no Espírito Santo, onde morou no Morro da Garrafa, favela no bairro de Gurigica. Lá ele pôs em prática as lições deixadas pelo pescador de Nazaré. Era pescador e, também, orador. Pregava o fim das opressões, a transformação da sociedade… Depois de 1964, passou a ser visado pela ditadura e, seguindo conselhos, resolveu ir para a cidade industrial, São Paulo, fazer militância dentro das fábricas.

vito16Tornou-se operário por acreditar que, compartilhando dos sonhos e das agruras do dia a dia daqueles trabalhadores, seria mais fácil chegar até seus corações e mentes e convocá-los para as mobilizações. Vito foi da Oposição Sindical Metalúrgica e se destacou pela firmeza na luta contra os patrões e os pelegos na capital paulista e pelo respeito que nutriam por ele os operários seus companheiros. Vito foi perseguido nos empregos, mandado embora sem explicações, viu companheiros tombarem e chegou a ser preso pela equipe do temido delegado Sérgio Paranhos Fleury.

Vito foi um feminista, difusor da obra de mulheres como Alexandra Kolontay e Eliete Safioti. Defendia arduamente a igualdade entre os sexos e sempre afirmava que a opressão da mulher pelo homem era tão grave quanto a opressão dos trabalhadores pelos patrões.

A chegada ao Rio e a criação do NPC

vito21Depois de passar por tudo isso, não desistiu da luta. Foi como dirigente da CUT que se apaixonou pela jornalista da Central, no Rio de Janeiro, Claudia Santiago. Desde 1992, com sua companheira passou a dividir sonhos e projetos pessoais e profissionais. Ele, então, veio para o Rio de Janeiro, onde criaram o Núcleo Piratininga de Comunicação, grupo que há cerca de 20 anos vem defendendo, incentivando e melhorando a comunicação dos sindicatos e dos movimentos sociais. Juntos rodaram o Brasil ministrando palestras e cursos, contribuíram para a criação de jornais em dezenas de entidades, lançaram livros e por aí vai. Devido à crença na importância da formação de jornalistas populares, criaram o Curso de Comunicação Popular há pouco mais de dez anos. Com ele, aproximaram-se de moradores de diversas favelas do Rio de Janeiro, contribuindo para que essas vozes oprimidas e silenciadas se transformassem em produtoras de informação e sujeitos de seu próprio discurso. Viram esse curso dar frutos, multiplicando-se em outras iniciativas similares por toda a cidade.

É possível contar em uma mão o número de vezes que Vito Giannotti já recusou algum convite para dar um curso ou palestra, seja para estudantes, seja para doutores, tratando todos, sempre, da mesma maneira. A história de mobilizações políticas do Rio de Janeiro certamente se mistura à sua própria trajetória de vida, pois acompanhou e contribuiu com tantas e tantas bandeiras de luta. Não apenas as da comunicação, mas as dos trabalhadores da educação, dos petroleiros, dos bancários, dos engenheiros, e tantas outras categorias. É muito difícil nos lembrarmos de alguma mobilização, no Rio de Janeiro, em que ele não estivesse presente.

Semeador de sonhos e luta

É esse homem que queremos homenagear, hoje e sempre. Um homem que certamente virou semente, plantando em todos com quem conviveu o conhecimento e o amor pelas causas justas.  Vito escreveu diversos livros, foi colunista do jornal Brasil de Fato e grande pensador do papel da comunicação na transformação da sociedade. Um cidadão obcecado pelas histórias de luta do Brasil e pela comunicação dos trabalhadores.  Alguém que esconde, por trás de tantos palavrões por vezes inacreditáveis, um homem afetuoso, gentil, companheiro, solidário, sempre disposto a ajudar qualquer um que dele necessite. Certamente nós, cariocas, muito devemos a ele.

vito26Insuficientes são as palavras para homenagear o grande lutador que foi Vito Giannotti, criador do NPC junto com sua companheira de vida e de sonhos Claudia Santiago. Vito era uma presença marcante, inesquecível, explosiva e doce ao mesmo tempo, que conquistou corações e mentes pelo Brasil afora. Por esse motivo, não foram poucas as mensagens de carinho que recebemos após sua partida, desde as produzidas por sindicatos e entidades de luta até aquelas feitas por personalidades e pelos alunos dos cursos que ele ministrou pelo país. De norte a sul o Brasil lamentou a sua perda e reforçou a importância de dar continuidade à luta que Vito começou e incentivou, sempre preocupado com a comunicação dos trabalhadores e a transformação do mundo.

Em meio a nossa dor, à saudade e à firmeza da luta, sigamos. É isso que Vito espera da gente. Vito Giannotti presente!

Ciao, companheiro. E obrigada por tudo.

Equipe NPC.


MEMORIAL DESCRITIVO

 VITO GIANNOTTI – 72 anos – nascido em Lucca (Itália), em 1943.

  • Residente no Brasil desde 1966

A)     HISTÓRICO PESSOAL

        Escolaridade

  • Terceiro Grau: Primeiro ano de Sociologia na Universidade Propaganda Fides, em Roma, em 1963

            Residência

  • Itália até 1963
  • Israel e Jordânia 1963 – 1964
  • França 1965
  •  Brasil desde 1966

             Idiomas     

  • português/ italiano/ latim / francês/ espanhol / inglês
  •   grego: conhecimento histórico

            Atividades profissional

  • Coordenador do Núcleo Piratininga de Comunicação (NPC)
  • Atividade atual: ministra curso de história das lutas operárias e comunicação para jornalistas, estudantes de comunicação e dirigentes sindicais
  •  Metalúrgico em diversas fábricas em São Paulo por mais de 25 anos

 B)     PUBLICAÇÕES

  • 1982 –  Publicação do livro:

                  Cem anos de luta da classe operária (Ed. Informar)

  •  1985 – Realização de uma pesquisa sobre, conteúdo, linguagem, distribuição, público alvo, etc, do Jornal da Oposição Metalúrgica de São Paulo.

O trabalho resultou na publicação:                                                                                                                       Radiografia de um Jornal Operário (Ed. CPV)

  •  1985 – Publicação do livro:                                                                                                                       Reconstruindo nossa história – Um século de lutas                                                   (Ed. Vozes – duas edições de 10 mil cada)
  •  1981 – 1985 – Redação e publicação de vários Cadernos de Formação para Trabalhadores – Ed. NEP 13 de Maio.

                 1º de Maio, ou 1º de abril – As 8 horas no Brasil                                                                  Trabalhadores, muitas lutas numa só classe

  • 1986 – Realização de pesquisa sobre a linguagem e o nível de leitura de jornais nas fábricas metalúrgicas de São Paulo.

Publicação de um livro pela Brasiliense, resultado deste estudo:                                                                O que é jornalismo operário

  •  1987 Publicação do livro:

                  O que é Estrutura Sindical  (Ed. Brasiliense) 3 edições

                   A Liberdade Sindical no Brasil (Ed. Brasiliense) 3 edições

  •  1988 Publicação do livro:

                  CUT por dentro e por fora (Ed. Vozes) duas edições

  •  1991 Publicação do livro:

                   CUT ontem e hoje (Ed. Vozes)

  •  1992 – Publicação do livro:

                  Collor a CUT e a Pizza (Ed. Scritta)

  •  1993 – Edição e publicação do livro sobre a Força Sindical

                    Medeiros visto de perto  (Ed. Scritta) 2 edições

  •  1994 – Publicação do livro:

                   Para onde vai a CUT (Ed. Scritta)

  • 1995 – Publicação do livro:

                   Trabalhadores da Aviação de Vargas a FHC (Ed. Scritta)

  •  1998 – 2001 – Elaboração e edição de revistas históricas ou temáticas usadas como exemplo/ treinamento das orientações do NPC.

                   –  SINSPREV: 10 anos de lutas (Sinsprev – SP – 1998)

                            –  O futuro do Mundo do Trabalho (Ceris/RJ – 2000)

                                         –  Conheça o PACS – balanço anual (Pacs/ RJ – 2001)

  •  1998 – Publicação do livro em co-autoria com Claudia Santiago

                   Comunicação Sindical: a arte de falar para milhões ( Ed.Vozes)          

  • 1999 – Publicação do livro:

                     O que é Jornalismo Sindical  (Ed. Brasiliense)

  •  2000 – Realização de pesquisa durante dez anos sobre linguagem sindical e sua          influência na comunicação sindical e popular.

Do estudo resultou o livro, em co-autoria com Claudia Santiago e S. Domingues

                     Manual de linguagem sindical (Ed. NPC)  

  •  1997 – 2004 – Realização de centenas de conferências e palestras sobre vários temas, ligados à comunicação sindical, à conjuntura política, ou a temas políticos gerais.

Essas palestras foram realizadas em quase todos os estados do país e algumas em vários paises da Europa (Itália, Canadá, Holanda, Inglaterra, Suíça – destacando-se algumas em Paris, na ocasião das comemorações dos 150 anos do Manifesto Comunista).

  • 2003 – Publicação do livro:

                     Força Sindical – a Central neoliberal (Ed. Mauad)

  • 2004 – Continuação de pesquisa iniciada na década anterior sobre a disputa de hegemonia e a linguagem dos trabalhadores  (Movimentos e sindicatos) e suas características. Analisa as raízes e consequências para a comunicação popular/alternativa da nossa herança histórica de Casa Grande e Senzala.

O estudo resultou no livro:

                   As Muralhas da linguagem  (Editora Mauad)

  • 2004 Elaboração de caderno temáticos da Série NPC:

                   O Dia da Mulher  nasceu das Mulheres Socialistas

  • 2005Pesquisa e publicação do livro-agenda

                    Comunicação dia-a-dia (Ed. Mauad)

  • 2005Elaboração e publicação de Cadernos de Formação do NPC

                    – As Centrais sindicais no Brasil (1906 – 2005)

                               – Trabalho Escravo no Brasil

                                            –  1º de Maio – dois séculos de luta operária

  • 2006 – Publicação do livro:

                   História das lutas dos trabalhadores no Brasil (Ed. NPC)

  • 2007 – Publicação do livro:

                   História das lutas dos trabalhadores no Brasil 2º Edição (Ed. NPC)

  • 2009 – Publicação do livro:

                   História das lutas dos trabalhadores no Brasil 3º Edição (Ed. NPC)

  • 2010  –  Continua sua pesquisa sobre a linguagem dos trabalhadores e suas consequências para a comunicação popular/alternativa.  Vito Giannotti e Sérgio Domingues elaboram um manual prático. Um dicionário. Com objetivo de enfrentar o problema da linguagem e traduzir o que é falado em economês, juridiquês, intelectualês, sindicalês e politiquês.

O estudo resultou no livro:

              Dicionário de Politiquês (Ed. NPC)

  • 2010 – Pesquisa e publicação do livro-agenda

                   Luta Dos Trabalhadores No Brasil No Séc. XX  (Ed. NPC)

  • 2011 Pesquisa e publicação do livro-agenda

                    Mulheres na História (Ed. NPC)

  • 2012Pesquisa e publicação do livro-agenda

                    Comunicação dia-a-dia (Ed. NPC)

  • 2013 Pesquisa e publicação do livro-agenda

                    Revoltas, Motins, Insurreições e Revoluções No Brasil (Ed. NPC)

  • 2014Pesquisa e publicação do livro-agenda

                    Luta e Revoluções Populares Na América Latina Nos Séculos XIX,                        XX, XXI (Ed. NPC)

  • 2014 – Publica mais um livro sobre a importância da comunicação dos trabalhadores para a transformação da sociedade. A obra apresenta reflexões sobre diversos conceitos, como o de hegemonia, pensado por Marx, Lenin e Gramsci. Também nega veementemente o mito da neutralidade dos meios de comunicação e explica por que considera a mídia o verdadeiro partido da burguesia.

O estudo resultou no livro:

             Comunicação dos Trabalhadores e Hegemonia                                                                (Fundação Perseu Abramo/ Editora NPC)

  Rio de Janeiro 16/09/2015

 

 

 

 

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